terça-feira, 10 de novembro de 2009

O bando debandou!

Comecei bem minha semana! Pela primeira vez eu vi de perto um crime articulado da forma mais detalhada possível fazendo com que nós, meros mortais, nos sintamos impotentes frente a alta capacidade e facilidade para o crime hoje em dia. Ontem passei cerca de cinco horas acompanhando de perto o drama vivido pelos moradores da cidade de Arroio do Padre – à cerca de 40Km de Pelotas. Saímos daqui (eu e o cinegrafista Alexandre Moreira) sem saber a real situação no município, mas sabíamos que o enredo envolvia quatro palavras suficientes para render um bom VT: assalto, tiroteio, fuga e refém. Saindo da TV uma ligação: “todo o efetivo da brigada militar e da polícia civil estão lá, a coisa está braba...passa aqui e pega colete a prova de balas.” (P.S. É tão bom saber que tem gente que nos gosta e nos cuida de verdade!).

Pois bem, colete no corpo e eu já me sentia indo para a faixa de Gaza – esta foi a primeira vez que vesti essa coisinha que quase me matou de tanto calor, por isso tanta euforia . Como se eu já não me empolgasse o suficiente a cada vez que o telefone toca e alguém anuncia uma pauta policial para mim!


No trajeto até a colônia o telefone não parava de tocar e quando eu cheguei ao local as informações foram ficando grandiosas demais para o meu bloquinho de anotações. O fato: Dez homens invadiram a agência do Sicredi de Arroio do Padre usando uma camionete. Na saída houve troca de tiros com a polícia que recuou quando viu que os bandidos saíam com uma refém. A mulher foi libertada a cerca de 200 metros do local do assalto. Até então sabíamos que os homens estariam escondidos em meio aos milhares de quilômetros que englobam a gigantesca colônia de Pelotas. Começamos a andar feito loucos atrás de qualquer viatura que passasse pelo nosso carro (aliás coitado dele! Agimos como se estivéssemos em um rali já que esta era a única forma de alcançar os policiais). Nos perdemos diversas vezes e depois de rodar, rodar, rodar e constatar que a nossa gasolina estava acabando resolvemos seguir o pessoal da Polícia Civil. A cada quilometro que andávamos nos assustávamos mais e mais com a audácia dos assaltantes...árvores estavam cerradas e caídas inibindo a passagem pelas estreitas estradinhas de chão. Como se não bastasse ficamos embasbacados quando nos deparamos com a camionete utilizada na fuga totalmente queimada em cima de uma ponte, e dentro dela um fuzil e uma serra elétrica. Pensei: “os caras são muito peitudos!”.

Fiz a reportagem e nela relatei toda ousadia deles, pasmem:






Virou moda: em todos os cantos ouvimos as pessoas falarem em Crime Organizado. Hoje qualquer bando que tenha uma ação criminosa realizada de forma eficaz passa a ser considerado como Crime Organizado. E isso é óbvio! Hoje ser bandido é um negócio lucrativo por demais. Para começo de conversa ali pelos anos 80 com a alteração sofrida no Código Penal o bandido passou a ser tratado como vítima. Na prática, basta o criminoso cumprir um sexto da pena para começar a obter sua liberdade. Logo, normalmente em um ano o cara já está novamente nas ruas continuando a fazer seus habituais crimes, já que nos últimos anos a profissão tornou-se compensadora.

Chegava a ser assustadora a quantidade de policiais que vasculhavam cada canto de Arroio do Padre. Tentativas frustradas! Os bandidos continuam desaparecidos, provavelmente ainda na colônia, provavelmente rindo dos policiais que apesar de todos os esforços ainda não conseguiram capturá-los.
Além da eficácia do trabalho minucioso dos bandidos existem vários outros fatores que podem ter sido determinantes para que os dez homens conseguissem escapar. Cito um: de acordo com as informações levantadas no município a brigada militar já sabia que o assalto aconteceria neste dia e neste local. Alguns moradores e comerciantes relataram que foram avisados pela brigada um dia antes e também contaram que desde às cinco horas da manhã viaturas já rondavam a região. A brigada militar nega e diz que recebeu uma ligação anônima na qual não foi citado o local exato do assalto (p.s. não entendo porque os comerciantes locais mentiriam sobre isso se os prejudicados seriam eles!). O fato é que a Policia Civil não foi avisada pela BM sobre assalto – sendo informada dele apenas uma hora depois do ocorrido. Me pergunto: E se alguém tivesse morrido durante o assalto? Quais seriam as conseqüências dessa “falha” de comunicação entre as polícias de Pelotas? Parece piada, mas infelizmente não é!

A criminalidade tem aumentado assustadoramente em todo o país e Pelotas registra o ano de 2009 como sendo o mais violento nos últimos 30 anos. Será que ainda conseguimos combater isso? Há quem acredite que deva começar por uma mudança emergencial no Código de Processo Penal Brasileiro, mas isso é uma discussão para um outro Post – já me estendi demais! A questão aqui é que ser bandido virou o negócio mais lucrativo existente no país e que o aumento da criminalidade se deve inicialmente à impunidade!

sábado, 31 de outubro de 2009

Meninos Invisíveis

- Oi, meu nome é Evelyn! Posso conversar um pouco contigo?
- (silêncio e cara feia).
- Então faremos o seguinte: primeiro tu me escutas e depois decides se quer conversar. Está bem?
- (silêncio e cara feia).

Sentei ao lado dele e da forma mais tranquila e natural comecei a colocar para fora todo aquele alto grau de persuasão indispensável a qualquer jornalista que se preze. Ele me viu descendo do carro da TV, por isso a desconfiança era ainda maior. Desci sem microfone, sem bloquinho, sem caneta, só com a simplicidade e humildade que herdei dos meus pais. Falei por uns 3 minutos até fazer um menino de rua se convencer a me dar uma entrevista (aqui vou me referir a ele como ‘D’ – a inicial de seu nome). Dois minutos foram de uma conversa informal no intuito de conquistar a confiança dele. O outro um minuto ficou dividido entre explicar o teor da entrevista e fazê-lo acreditar na minha palavra de que não colocaria o rosto dele na televisão. Consegui. Foi neste dia que dei meu primeiro mergulho de cabeça na vida de quem tenta sobreviver nas ruas de Pelotas.

O primeiro (e único) que consegui entrevistar nesta semana foi um rapaz de 16 anos que assim como a maioria tem casa, mas prefere a rua. A vida na periferia é um desafio para as famílias, são poucas aquelas que conseguem sobreviver à desestruturação familiar. Com a família de ‘D’ não foi diferente. O pai bebia e espancava a mãe. A mãe era submissa e atendendo sempre aos desejos do marido engravidou nove vezes. ‘D’ saiu de casa na primeira vez que viu a mãe apanhar. Ele tinha oito anos. “Cansei de ver aquilo. Minha mãe não merece. Aí vim pra rua e comecei a pedir”. Hoje já se passaram oito anos e ele está na mesma situação, pede dinheiro nas ruas para ajudar em casa. Sim, ele vai para a casa, mas só para largar o dinheiro com a mãe ou largar a sobra que ele consegue pegar no final das feiras de hortifruti que acontecem na Avenida Bento Gonçalves.

Durante toda a nossa conversa ele contou a experiência de vida de quem mora nas ruas. “Não existe quem mora na rua e não usa ou não tenha usado droga. A rua já é uma droga e quando tu ta nela sempre tem alguém pra te convencer de usar”. ‘D’ confessou que também já usou, mas me garantiu que hoje só fuma cigarro – como se agora ele que quisesse conquistar a minha confiança!

“O que é mais difícil pra ti enquanto morador de rua?” eu perguntei. Perguntei, mas não esperava a resposta que veio: “O jeito como eu sou ignorado pelas pessoas”, disse ele. Ali eu engoli seco enquanto atenta continuei ouvindo ele justificar que (SIC) "não sou um lixo, não sou um nada". Como se alguém precisasse justificar isso! E o ouvi, com amargura, perder a conta de quantas vezes alguém já deu comida para um cachorro e para ele não. “É horrível ver nos olhos dos outros o desprezo. Passam por mim e fazem de conta que não me veem. Eu falo com eles e eles fingem que não me ouvem”.

Aí me pergunto: Quem nunca ignorou um mendigo? (talvez por medo, o que até certo ponto é compreensível nos dias de hoje). Tu já o fizeste e eu já o fiz! E por isso me doeu tanto o que ele disse. E me disse olhando nos olhos enquanto a minha culpa me entregava. Desde então venho me questionando: Que direito tem um ser humano de ignorar outro? Ele é exatamente como eu, só não teve a mesma sorte ou a oportunidade de ter uma boa família, de ter amor, de ter estudo.

A vida é mesmo corrida, talvez por isso não paremos pra nos colocar no lugar do outro. Aprendemos a dar valor para coisas que não são tão importantes e acabamos deixando de lado aquilo que de fato vai nos engrandecer enquanto ser humano. Tu já te imaginaste no lugar destes coitados? Como eles vão acreditar e confiar no homem se o próprio homem reproduz a inexistência deles? Hoje eles são meninos invisíveis. Meninos sem perspectiva alguma, atolados no crack e sem ter quem os ajude. Existe ainda quem pense “ele está na rua e no crack por opção”. Não! Ele está ali por falta de opção! É tão difícil criar um programa para tirar estes meninos de lá? Extinguir o problema é mesmo difícil, mas talvez porque ele esteja sendo tratado da forma errada. Casa do resgate? Eles conseguem fugir de lá com a maior facilidade. Abrigo? Não há vaga. Hospital Espírita? Não há vaga.

A vida nas ruas é mais fácil e eles querem uma vida fácil, claro! A vida deles já é muito difícil. É preciso que se crie um programa gratuito que dê atendimento de qualidade, que faça eles desenvolverem atividades capazes de exaltar a auto-estima, os estimulando a não voltar para a rua. Um lugar para onde eles vão e fiquem! Não para onde vão, fiquem 15 dias e sejam soltos com as autoridades pensando que tudo está resolvido. Alguns voltam para as ruas, roubam e assaltam para sustentar o vício. Outros voltam para a rua e continuam pedindo já que se não fizerem isso os irmãos sentirão fome e acabarão com o mesmo destino: a rua.

‘D’ ainda quer sair da rua. Quer estudar e ser bombeiro porque segundo ele: “assim eu vou poder salvar um monte de vida. E se pegar fogo na casa de alguém eu posso salvar um pouco e ele não vai precisar ficar na rua”. Um pensamento mais louvável do que os de muitos filhinhos de papai que tem tudo e não valorizam nada, nem a própria vida!


Depois de entrevistar o ‘D’ fui até a Avenida Duque de Caxias e lá um menino de sete anos trocou meia dúzia de palavras comigo e quando, de longe, avistou o cinegrafista (Renato) fugiu! Ele é hoje mais um menino invisível - a sociedade o transformou nisso. E talvez ele tenha fugido porque já se acostumou com esse lugar, o lugar do desprezo. Talvez ele queira manter-se invisível, e porque não? Que outra opção ele tem hoje?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A saúde é um direito social garantido ao cidadão?

Hoje me deparei com uma situação calamitosa e apavorante. Pela primeira vez entrei no Hospital de Pronto Socorro de Pelotas (HPS). Durante o trajeto da TV até lá fui me preparando psicologicamente, mas não foi o suficiente – e nem nunca será. Saí de lá pior, muito pior. Triste, magoada, furiosa, doída. Visitei cada leito e cada corredor, conversei com cada família e com cada paciente (claro que aqueles que ainda tinham forças para falar).

Ao sair de lá fui tomada por uma mistura de sentimentos e o que prevaleceu foi o medo! Medo por cada um daqueles pacientes, medo por cada um daqueles familiares.
Mais uma vez a minha profissão me proporcionou uma experiência indescritível. Estou tentando delinear aqui o que vi, mas confesso: está muito difícil. Já foi difícil descrever a situação através das imagens da reportagem que fiz para a TV. Mas para que entendas melhor tamanha dificuldade preste atenção no vídeo abaixo:



A Dona Eva e a Dona Leopoldina foram apenas dois personagens que “ilustraram” a minha reportagem. Durante esta manhã, nas quase duas horas que passei lá dentro, ouvi inúmeras histórias, inúmeras reclamações, inúmeros murmúrios e sussurros de dor, de sofrimento. Ouvi através de alguns olhares um pedido silencioso de socorro e através de uma fala baixinha ouvi até mesmo um: “eu preferia morrer” (...) Naquele momento parece que eu ouvi o silêncio da morte, foi horrível – e olha que no último ano deixei de ser a Evelyn-movida-a-emoção (por motivos que não cabem aqui) e passei a ser racional até demais.

Mas como não se comover? A dor – e aqui não me refiro somente à dor física – de cada um deles parece que se transferiu pra mim. Talvez por isso eu esteja com o semblante tão triste hoje, com os ombros tão pesados (...)
Eram pacientes com todos os tipos de problemas e doenças possíveis. Todos acumulados, praticamente uns sobre os outros. Jogados ao chão. Disputando espaço com lixeiras, pedaços de comida, pedaços de esperança. Como pode um ser humano ser humilhado desta forma quando ele mais precisa? Como pode o poder público fechar os olhos para esta situação? Como pode a saúde pública ser tratada de uma forma tão desleixada? – mal consigo encontrar a palavra ideal –. Como pode um Pronto Socorro estar neste estado insalubre?

A Organização Mundial de Saúde (OMS), tendo como base a qualidade da saúde pública oferecida aos seus cidadãos, classificou o Brasil em 125º lugar no ranking mundial entre 191 países. Um dado que apenas comprova e reforça essa realidade quando nos deparamos com situações como esta que vivi hoje.
Se entrares no site do Ministério da Saúde o que tu mais vês é a palavra “cidadão”. Agora eu me pergunto: Que cidadão? O brasileiro que necessita do Sistema Único de Saúde (SUS) pode ser considerado um cidadão enquanto ele nem ao menos é tratado como tal! Um idoso que alcança seus dolorosos 90 anos, doente, largado em uma maca no corredor de um pronto socorro superlotado, sem leito, sem atendimento e muitas vezes sem comida está sendo tratado como cidadão? Claro que não, ele não esta sendo tratado nem como um Ser Humano!!!

Já pensou um familiar teu nesta situação? Já te imaginou nesta situação? Sorte de quem ainda não precisou colocar os pés lá dentro e de quem não necessitou daquele “atendimento”.

Nem mesmo a diretora administrativa do HPS de Pelotas agüentou! Nem ela, que vive esta desgraça diariamente resistiu. Foi ela quem abriu as portas do HPS para nós – logo nós que sempre somos impedidos de gravar até mesmo através daquela janelinha redonda que mostrei no início da reportagem.

Um atendimento de qualidade (e gratuito) é direito social e está garantido pela Constituição onde diz: “São direitos sociais: a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.A Constituição deveria regular e organizar o funcionamento do Estado. Aí vem aquele papinho que estamos cansados de ouvir: mas ela é falha, não funciona... não adianta tentar mudar, as coisas são assim, Deus quis assim (...) Não é fácil, eu sei, mas é impossível? Chega de conformismo!

Passei o dia me questionando: Quando estas palavras escritas na Constituição sairão do papel e tornar-se-ão práticas e reais? Existe alguma ação do governo municipal para que problemas como este sejam sanados? Existe alguma intenção do governo municipal para que a saúde do pelotense não seja tratada com descaso? Existe?
Para se ter uma ideia: na reportagem postada acima eu nem pude mostrar tudo o que vi, mas são cenas que com certeza eu não vou esquecer. Nem eu, nem quem conseguir sobreviver àquele caos.

domingo, 11 de outubro de 2009

A 1ª ameaça nunca se esquece

Obrigada Juliano por me mostrar que estou fazendo um bom trabalho!

Na profissão de jornalista lidamos diariamente com a vida das pessoas, mas muitas vezes o que vem pela frente é o interrompimento delas. Aprendemos a conviver com a morte e nos acostumamos com os corpos estirados no chão, mutilados, acidentados, baleados (...) mesmo que essas imagens nos acompanhem em sonhos durante várias noites (quando conseguimos dormir).

As reportagens policiais e de investigação me conquistaram e hoje são as que eu tenho maior prazer de fazer! Nestas idas e vindas virei amiga de alguns policiais, passei a freqüentar diariamente as delegacias da cidade, a receber telefonema de BM´s, civis, sargentos e delegados que tornaram-se minhas fontes e me acostumei com a presença de bandidos adquirindo o traquejo de convencê-los a me conceder entrevistas. Mas é claro que acabei pagando o preço por ser “metida” demais!

O fato é que quando encasqueto com algo vou até o final e gosto de fazer a coisa bem feita! O problema é que numa dessas minhas “teimosias” encontrei no caminho um bandido um tanto quanto abusado! Tudo começou com esta reportagem que postei abaixo. Simplesmente o meu trabalho... que resultou em uma sequência de ameaças vindas de um destes dois “cidadãos” que mostrei na matéria através das imagens gravadas pelas câmeras de vigilância do mini-mercado Otto, em Pelotas:



Pois bem, o moço de casaco cinza chama-se Juliano Lages Martins (conhecido como ‘Bonito’ ou ‘Fincão’) e tem seus calejados 30 anos – dos quais a maioria é recheada de assaltos, furtos, tentativas de homicídio, formação de quadrilha, etc, etc, etc, etc. Um homem magro que tem o rosto ossudo e olheiras profundas provenientes do uso do Crack. Sim: o abusado resolveu me importunar por eu fazer, simplesmente, o meu trabalho!

Depois desta reportagem ainda fiz outras três: todas retratando assaltos feitos por ele. Todos feitos à estabelecimentos comerciais do bairro Fragata. Todos feitos à mão armada. Todos deixando pessoas assustadas e com medo, e um deles deixando um homem ferido.

Fui além! Assim como faço com todos os bandidos que aterrorizam Pelotas peguei foto e baixei a ficha criminal junto à Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (DEFREC) e fiz uma matéria sobre o perfil dele dizendo tudo que já havia feito, há quanto tempo estava foragido e mostrando essa foto que hoje coloquei aqui no Blog.

Uma semana depois da última reportagem alguém se identificando como sendo o Juliano telefonou para a polícia dizendo que “mataria a repórter da TV Nativa”. Pensei que certamente alguém estaria ‘tirando o meu tempo’, mas comecei a temer um pouco em uma noite estava indo fazer uma reportagem:

Eu e o cinegrafista (neste dia Alexandre Moreira – vulgo ‘cabeça’) íamos para o bairro Dunas porque o POE tinha prendido alguns homens por contrabando. Estávamos no carro da TV. No caminho uma moto nos seguiu e parou ao lado do carona (leia-se: o lado onde eu estava sentada). Quando paramos em uma rua o motoqueiro encostou na porta e ficou me encarando por alguns segundos e eu o encarei de volta! Foi quando reparei que o homem usava um casaco igual ao dos assaltos, que usava o mesmo capacete (azul escuro) e a mesma moto (uma Yamaha YBR, preta). Olhei nos olhos e reconheci o rosto e o rabo de cavalo saindo pelo capacete. Foi instintivo, mandei o Alexandre acelerar! Nos ‘borramos de medo’ (com o perdão da expressão). Liguei para o investigador da DEFREC – um destes que tornou-se meu amigo – e apavorada contei o ocorrido e ele me deixou ainda mais agitada quando me disse para ficar calma, mas esperta!

Depois desse dia ele me seguiu mais uma vez. Foi na Rua Voluntários, em um sábado às 17h. Em seguida as ligações se estenderam para a TV e para o meu celular – ao qual já recebi duas ligações de números não-identificados onde as palavras foram basicamente essas: “eu sei onde tu mora, o que tu faz e com quem tu anda. Eu vou te pegar sua v***! E vou te matar”.

A última ligação veio no dia 06/10. Mas desencanei. Já se passou muito tempo e nada, isso é puro divertimento para ele e enobrecimento para mim! Hoje ele permanece foragido e pelo o que sei está fora de Pelotas! Claro que tomarei as precauções cabíveis até que ele seja preso (e volte a ser solto ou colocado em Liberdade Condicional como estava este ano antes de fugir do Presídio Regional de Pelotas). Tenho andado mais esperta, parado um pouco com o ônibus e sendo super-hiper-ultra coberta pela proteção preocupada do meu pai e de alguns amigos.

Fiquei feliz com a situação e muita gente me questiona o porquê desta “felicidade”. Respondo: isso é uma das provas de que estou fazendo um bom trabalho. Assim, eu agradeço ao Juliano por me mostrar que estou realmente na profissão certa! Temer? Não mais! O profissional de imprensa que se preza tem que trabalhar em defesa da sociedade. O Juliano (assim como outros) não tem a menor condição de viver em sociedade e enquanto eu puder ajudar denunciando estas pragas, assim farei!

Agora quem está ameaçada sou eu, mas quem sabe o jogo não se inverte? Já falei aqui que fiz boas amizades dentro da policia? Pode ser que bata um arrependimento por quem usa da fama de bandido para amedrontar uma jornalista que só quer ajudar a tirar de circulação pessoas que não tem a menor capacidade ao convívio social!

Ahhh se eu não fosse jornalista com certeza seria policial (e essa vontade ainda me consome)!

domingo, 4 de outubro de 2009

Ser brotinho no século XXI

Usar palavras fúteis e gírias indecifráveis, rir compulsivamente e tão alto que quem está à um quarteirão de distância possa ouvir. Ser “brotinho” nos anos 2000 é ver brotar de crianças de 10 anos uma jovem mulher que usa salto alto, maquiagem, que namora (e até transa) e detém sentimentos adultos em corpo de criança. É ser cool, é ser líder, é pular a etapa mais doce e de maior importância para o desenvolvimento humano: a infância.

É ridículo, é patético e até impressionante a mudança do termo “brotinho”. Há 50 anos o “broto” era a mulher possível de si, ousada, inteligente, em busca do seu lugar no mundo. Hoje o broto virou “mina”, e o conceito se distorceu e decaiu. Ela continua independente, mas agora é adolescente. A “mina de responsa” é aquela que transa com qualquer um, e com outro, e com outro, e com outro...e acha isso bonito.

O “broto” queria a independência que hoje a “mina” conseguiu, mas que não sabe usar. A liberdade virou libertinagem. A responsabilidade... o que é isso mesmo? O broto do século 21 é vulgar, é nojento, é fútil, é um desastre! Ser “broto” era a busca da igualdade, era discursar para chamar a atenção para os problemas do mundo. Ser “mina” é ter a igualdade e discursar para chamar a atenção para a roupa de marca que se está vestindo. O broto cultuava o intelecto, a mina cultua o corpo.

Ser mina é adorar o fútil e detestar o útil. É acordar ao meio dia, depois de passar a noite na balada, encher a cara de maquiagem e ir para o shopping torrar o dinheiro do pai e comer uma folha de alface!



Esta crônica eu fiz para um trabalho acadêmico (para quem não sabe, atualmente eu curso Letras na Universidade Católica de Pelotas), mas gostei tanto que resolvi publicar. A ideia era fazer uma crônica considerando o conceito de intertextualidade a partir da leitura do texto Ser brotinho de Paulo Mendes Campos, onde eu deveria retratar a jovem da nossa década. Enfim, o que saiu (em 10 minutinhos) foi esta singela, mas sincera, crítica às "minas".

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os cães nas ruas de Pelotas



Esta reportagem acima foi feita sábado (26) e finalizada segunda (28). Aqui eu vou pontuar algumas questões às quais me fizeram dedicar tanto à pauta:

ggggggggggggggUm cachorro para cada 10 pelotenses!

Hoje em dia é impossível andar uma quadra pelas ruas de Pelotas e não se deparar com um cachorro (ou mais). A explicação é simples: somos (na zona urbana) cerca de 300 mil habitantes e há dois anos atrás o número de cães que moravam nas ruas da cidade era de 30 mil (além dos semi-domiciliados, como citei na reportagem, que somavam 60 mil). Mais um detalhe: isso foi há dois anos, sendo assim, levando em consideração que uma fêmea entra no cio duas vezes por ano e gera entre 3 e 6 filhotes, a garantia de que este número tenha no mínimo duplicado é única (...) Não costumo dar muita bola para a matemática - talvez por isso eu tenha escolhido fazer comunicação -, mas este número equivale a 10% da população da cidade! Logo, encontrar um cachorro a cada esquina é uma barbada.
Semana passada o vereador Ivan Duarte (PT) me procurou para falar do assunto. Me interessei (gosto de cães - tenho três - e gosto de Pelotas). Simples assim: decidi telefonar para as gurias da ONG SOS Animais e acompanhar um mutirão. Fomos ao bairro Catinga localizado no prolongamento da General Osório, próximo à ponte que liga Pelotas a Rio Grande. Claro que me impactei ao ver a situação de cães tão judiados que são tratados voluntariamente pela ONG, mas uma coisa me chamou mais ainda a atenção: lá as crianças dividem o espaço com os bichos doentes. Acariciam sem nojo. Abraçam e beijam sem maldade, sem saber que aquele gesto tão inocente pode estar transmitindo à elas alguma doença. E o pior: brincam em meio ao lixo e seus pés descalços dividem espaço com a água do esgoto, usada também pelos cães para matar a sede.
Meu primeiro questionamento: como Pelotas vai tratar dos cães se nem mesmo das pessoas está cuidando?? Como Pelotas criará um projeto para que estes pobres animais sejam tratados se aquelas crianças (mais pobres ainda) vivem em situação CALAMITOSA na periferia de Pelotas?
A discussão feita hoje na câmara de vereadores da cidade foi um passo importantíssimo. Pelotas quer ser uma cidade reconhecida pelo turismo, mas está se deixando tomar pelos cachorros de rua que transmitem doenças, que vasculham os lixos, que importunam quem tenta caminhar pela cidade.
Pelotas precisa de um canil decente, que trate e coloque estes animais para adoção. Pelotas precisa realizar campanhas para conscientizar a população. Como pode alguém pegar um bichinho doce desses e largar na rua depois de grande? Como pode alguém não querer adotar um cãozinho vira-lata porque ele é feio? (eu tenho uma cadela da mais pura mistura – e bem feinha, que adotei quando ela já tinha 1 ano de idade e eu amo ela).
Pelotas precisa de projetos de castração! Isso é urgente. Se em outras cidades do país programas de intervenções cirúrgicas junto à Universidades está dando certo, porque aqui não poderia funcionar? Guardadas suas devidas proporções, Florianópolis esteriliza 25 animais por dia, um procedimento que serve puramente como estratégia de controle da superpopulação de cães.
Trago aqui alguns dados preocupantes da World Society for the Protection of Animals (WSPA):
1. Um casal fértil de cães é capaz de gerar 67 mil descentes em seis anos (período médio considerado como produtivo) e 60 filhotes diretos.
2. São registrados 15 nascimentos de cães e 30 de gatos para cada humano no mundo.
3. A média de 25 cirurgias por dia é o número de procedimentos indicado para uma população de 400 mil de habitantes.
(assim Pelotas deveria castrar cerca de 18 animais por dia – hoje não há projeto de castração da prefeitura, castramos 0 animais por dia!)

Parabenizo: gurias da ONG SOS Animais! Elas gastam em média R$ 300 a cada mutirão para fazer um trabalho que já deveria estar sendo feito. De onde vem este dinheiro? Do bolso delas! Elas cuidam com amor, se preocupam com os bichos, mas trabalham pelo bem estar da população.

Conclusão: “empurra-empurra” não vai adiantar! “Fugir à responsabilidade” só vai piorar a situação!

Desejo: Que os órgãos competentes se mostrem interessados e capazes de começar uma mudança, antes que uma situação de saúde pública vire um transtorno ainda maior e fuja ao controle humano.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Escolhi a profissão certa! Sem dúvida alguma a cada dia que chego em casa, mesmo depois das mais estressantes horas, encho meus pensamentos e agradeço por ser jornalista. Talvez a única, entre tantas outras profissões, que consegue nos fazer vagar em um único dia por mundos diferentes, presenciar vidas diferentes e aprender lições com elas. Por isso, hoje, criei este blog. Acabo de chegar em casa, vim de uma pauta não muito valorizada - éramos (TV Nativa/ Record) o único meio televisivo a estar lá. Agora, sentada, pensei: "preciso de um lugar onde não haja censura, onde eu possa me expressar na forma mais pura e mais sincera sem precisar sentir os olhares inescrupulosos de muita gente medíocre que tem nessa cidade (leia-se: as exceções sempre existem)". Sendo assim, agorinha, criei o Hermenêutica Sacana e é aqui que eu vou libertar o que matuto e que, seja lá quem for, poderá interpretar à sua forma o sentido das minhas palavras. Então aí vai o primeiro texto sobre um espetáculo que assisti agora e que pela 138494 vez no dia, me renovou como pessoa e como profissional (...)


gggggggg Como se dá essa magia?

“Não importa se você fala direito, o que importa é se você vive aquilo que você fala”, foi com esse dizer que começou hoje um espetáculo que me fez repensar algumas coisas. Às 20h esteve em Pelotas a trupe circense “O Teatro Mágico”, um grupo criado por Fernando Anitelli no ano de 2003. Conclusão: A gurizada paulista é medonha! Fez lotar o Teatro Sete de Abril e levou a platéia (me incluo, mesmo estando lá à trabalho) do riso incansável ao pensamento crítico sobre a vida. O preço foi de R$10,00 (e meia-entrada a R$5,00), mas o valor da noite foi bem mais alto. Os pelotenses que tiveram a sorte de assistir ao belíssimo espetáculo “O Segundo Ato” puderam aprender e compreender melhor a sua vida através das palavras de um palhaço!
Saí de lá valorizando mais cada passo que eu dou na minha jornada enquanto uma profissional da comunicação. Não lembro exatamente quais foram as palavras usadas pela trupe que me fizeram sentir assim. Talvez por isso o grupo se chame “Teatro Mágico”, talvez este seja realmente o poder deles. Um mágica feita imperceptivelmente, mas que é capaz de transformar pensamentos, de tornar quem assiste o espetáculo um ser mais crítico, mais amante da vida, mais gente!
Fatos: o mundo aliena e a comunicação aliena. O que eu – uma jovem jornalista e formadora de opinião – posso fazer para desalienar o povo? Sou um pinguinho no meio do oceano, mas quero poder contribuir, quero oferecer subsídios suficientes para estimular o pensamento alheio, quero fazer das pessoas seres pensantes, que discutam, que debatam, que aprendam (...) E realmente tento todos os dias fazer deste pensar o que norteia as minhas reportagens. Não quero – e não posso – alienar mais ainda pessoas que já tem seus pensamentos comandados pelas classes dominantes (infelizmente incluem-se aí alguns meios de comunicação). Como fazer a mudança? Como levar ao público informações com real relevância? Sem manipulações? Sem “rabo-preso”?
Através deste espetáculo que vi hoje, começo me questionando: Pelotas é ou não uma cidade-cultura? Porque tanto ouvimos falar isso? Pelotas não quase perdeu sua principal expressão cultural ainda neste mês (refiro-me ao Grupo Tholl) exatamente por falta de apoio à cultura local?
Será que é preciso vir um grupo circense paulista fazer uma apresentação em Pelotas – ao mísero custo de R$10,00 – para que algumas pessoas percebam que o acesso à cultura é fácil e deve se estender a TODOS? Quer povo alienado: não dê cultura à ele!
Nos últimos meses alguns empresários e produtores culturais de Pelotas tem dado, talvez, os primeiros passos para que a cidade enxergue a diversidade cultural com outros olhos, com olhos de quem pode oferecer o exercício da mente, com olhos de quem enxerga uma Pelotas culturalmente desenvolvida, com olhos de quem vê os pelotenses como seres capazes de pensar, capazes da crítica e dos questionamentos construtivos. Acorda Pelotas! Já passou da hora! Que o “Teatro Mágico” enfeitice mentes engessadas e borrife nos ares europeus de Pelotas pingos de cultura. Quem sabe assim aconteça aquela magia de transformar Pelotas na “Terra do Nunca”, mas diferente do Peter Pan onde lá a infância é imortal, que aqui – e a partir de agora – a cultura seja perene, ininterrupta!